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Sampa, SP, Brazil
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quarta-feira, 3 de março de 2010

A deusa da condução



cenário : Avenida Paulista, Sampa, dia “cool”, “tipo” fim de verão, por volta de duas da tarde.
veículo : transporte público, ônibus, sentido bairro, mais precisamente, Masp para Vila Mariana.

Jeremias entra, para na catraca, pega a carteira, paga e passa.
Ao passar, ainda preso no meio da “borboleta de aço”, nota a poucos bancos em frente, um olhar que por um átimo, cruza o seu.
Ela abaixa a cabeça, desvia, fica de perfil, olhando a janela.
Ele mal observara seu rosto por inteiro (ainda...)
Ela, 30, 35 anos.Ele , mais maduro.

Jeremias senta no banco, logo atrás, mas no lateral.
Sem intenção, tem os cabelos dela à sua mira.

Jeremias ( também como ela...) observava atentamente as personagens que fervilham pela grande avenida.
São trôpegos embriagados, moços em ternos e gravatas, mendigos ajoelhados a pedir qualquer coisa que possam lhe dar, doidivanas , hippies atrasados, "ladies" chiques, coquetes, personagens que parecem mais sair d’um circo burlesco e bizarro.Coisas de grandes metrópoles. Normal.

De repente, por um ímpeto, completamente absorto com as personagens das ruas, Jeremias se achega próximo à ela, por trás de seu ouvido, e diz em voz media, com um sorriso discreto no rosto : “...a gente encontra cada personagem em São Paulo, não é mesmo ?”

Ela, sem surpresa, vira-se a meio rosto, e com um certo rubor nas faces (timidez, quem sabe...) abre um doce sorriso e responde : “Sim...é mesmo...é verdade...Voce viu aquela senhora cigana ?
“Vi sim..”, responde Jeremias, também com um sorriso no rosto e continua :“agora...eu queria ter uma câmera fotográfica nas mãos, com uma grande objetiva, pra captar essas personagens...”(risos de ambos)

Ela afirmou com a cabeça, sorrindo ainda...Jeremias sentiu que ela iria continuar a conversa, bem como ele tb continuaria.
Mas o celular da moça toca...Ele respeita e interrompe a conversa

Ela diz a alguém, em voz baixa ( dava-se pra perceber de longe que era uma pessoa extremamente fina, educada e que tais...). Jeremias ouve um pouco , e discretamente nota que ela explica que está na Paulista, coisa e tal...
De repente, após a ligação, ela fica meio sem jeito...Guarda o celular e dependura a bolsa no ombro e balbucia meio sem graça, leve sorriso (ou seria decepcionada ?...), olhando para Jeremias : “ ...caminho inverso...tenho que voltar...”
Ela se levanta já apressada ao próximo ponto, dá o sinal, vira-se para Jeremias e diz, olhando dentro dos olhos dele, também : “...faz sim...quem sabe um dia não vejo suas fotos publicadas...”

(Daí foi que Jeremias observou atentamente o rosto maravilhoso da moça...Olhos amendoados, cor de mel claro transparentes, um sorriso de derreter aço carbono...Corpo esguio. Voz suave, grave, aveludada, dicção perfeita !...Lindíssima...simpaticíssima...uma verdadeira deusa encarnada dentro de uma condução paulistana...Seu coração acelerou como há muito não acontecia...Seria "amor" à primeira vista ?..mas, Jeremias não acredita nisso !...pobre Jeremias...)

O ônibus freia...O ponto está aí...Ela se equilibra e caminha em direção à porta...Algum tumulto normal em pontos de ônibus...

Ambos tem expressão de “nunca mais nos veremos”.

Jeremias acena do banco, olhando dentro dos olhos de sua deusa sem nome e diz : “...boa sorte !”....ela retribui com o mesmo : “...boa sorte...”

Jeremias ainda tenta olhar para trás, pela sua janela, mas ela já havia sumido na multidão... (aventou consigo mesmo : "...saio e vou atrás...me apresento ?...deixo cartão ?...")

Será que Jeremias perdera para sempre a oportunidade de recomeçar a sentir essa adrenalina dos deuses ?...Será que realmente nunca mais a veria ?...Será que em meio a 12 milhões de almas, um dia reveria “sua deusa” de poucos minutos ?

Jeremias não dormiria mais sem pensar nessas possibilidades.
Nem naquela noite e nem em muitas noites adiante...

14 comentários:

IVANCEZAR disse...

Jeremias vive fragmentadamente no interior de muitos outros seres análogos ... Volto ao convívio após ausência compulsória. abraço !

Adriana Godoy disse...

Joe, essa crônica urbana, o amor que se encontra em um ônibus e se perde na avenida. Lindo fragmento. A história de Jeremias pode ser a história de tantos outros que se encontram no meio do caos. Gostei bastante. beijo.

Joe_Brazuca disse...

Verdade, Adriana...

quem acaba mandando, afastando, indisponibilizando é o Caos !

um beijo


Grande Ivan, o justiceiro !...rsrs
legal estar de volta...deposi me conta esse "compulsório",tá ?...o que houve, amigo...grande abraço !

Érico Cordeiro disse...

Bela crônica.
Avida é, de fato, a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Mauro,
Grande resenha, para um grande músico (um dos maiores dentre os maiores). Não conheço esse disco, mas vai prá listinha, com toda certeza.
A lamentar, no dia de hoje, a morte do querido Johnny Alf, o nosso eterno Rapaz de Bem!
Continuemos a ouvi-lo sempre!!!!
Abração!

Cíntia Thomé, Jornalista, Poeta . disse...

Perdemos momentos mágicos, perdemos as mãos enlaçadas muitas vezes..fica a lembrança, a cabeça de sonhos e cheia de possibilidades...essa vida de 'medo' de se aproximar, de amar...
Lindo Joe.


***Triste com Johnny...vc deve tá que tá...mas como já disse, deve ter levado o piano...

Joe_Brazuca disse...

Esses momentos são únicos e nos marcam indelevelmente !
bj, Cintia !

Érico...grato por ter vindo e ainda mais por ter gostado...e de um abraço no Mauro, ok ?...rsrs
e...sim !,,,perdemos o Johnny...nossos pianos se calaram...
abração !

Érico Cordeiro disse...

Grande Joe,
O Mauro é do Hot Beat Jazz - um grande blog sobre jazz (se você ainda não conhece, por favor, dá uma passada lá - tem um link no jazz + bossa).
Acho que misturei os comentários (rs, rs, rs). Mas a tristeza pela perda do Johnny persiste!
Abração!

Lúcia Amorim: disse...

JEREMIAS TALVEZ COMO TEOBALDO...GOSTA DE PENSAR...MEDO DE ARRISCAR? TALVEZ...OU NÃO...PODERA ELE NOVAMENTE ENCONTRAR ALMAS? NÃO SEI...QUEM SABE JEREMIAS OU TEOBALDO.
bEIJOS CARINHO LÚCIA AMORIM

Joe_Brazuca disse...

Quem sabe, não é Lucia...será medo ou acaso ?...grato e bj

Layara disse...

...muitas possibilidades nessas letras, tantas, sem fim...

As vezes guardamos na lembrança algo que valeu a pena, e na lembrança fica, em caixinhas coloridas de esperança, de que um dia saia do imaginário para a realidade. Sonhos lúcidos a nos acompanhar.

Boa Tarde!

Juscelino disse...

Vou mais longe: muitas vezes, mesmo de longe, num lapso, se ama e a amada jamais saberá!

Excelente, Joe.

Um abraço!

Joe_Brazuca disse...

LAYARA...adorei o "sonhos lúcidos a nosa acompanhar"...é por ai mesmo !...um beijo

JUSCELINO...caro e velho amigo !...pois é verdade mesmo o que bem disse...são lampejos que nos derramam aquela adrenalina que há muito, não se manifesta...grande abraço !

Marga Dambrowski disse...

De novo o frio na barriga!

Quem sabe esta aparição não foi o incentivo que Jeremias precisava para fazer a exposição?

Joe_Brazuca disse...

Marga...pois é, né...rs...quem sabe essa "santa adrenalina", faça-o acordar !...um biejo

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