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Sou terra, por ter razões. Sou berro, se aberrações. Sou medo, porque me dou. Sou credo, se acreditou

terça-feira, 28 de junho de 2011

Sete Tempos


Manda-me mais sonhos
ainda tenho muito sono
é cedo para camisa e gravata
os anjos rondam minha cama
e me arrumam as cobertas

Ferva-me mais água
o café, deixa que meço
é cedo para o banho quente
o aroma inunda a casa
e pede janelas alertas

Esquenta-me mais os ladrilhos
ainda visto macia flanela
é cedo para a porta e fresta
os sonhos inda persistem
fogem das horas certas

Banha-me de doce perfume
ainda de que breve escuma
é cedo para o baile e festa
o lenho que queima e aquece
trepida em faíscas dispersas

Arruma-me por sobre o leito
a roupa que o sol secou
é cedo para o pente em riste
o torpor que cai e esvanece
deixa por sombras discretas

Alinha-me sobre o peito
o pão que ainda existe
É cedo para a faca e corte
O leite de ubre e porte
escorreu por valas abertas

Lustra-me o couro pisado
ainda é pouco o brilho
já se faz tarde, ao que viestes
o corpo cálido que a lua velou
deita eterno em pedras concretas...

4 comentários:

MIRZE disse...

Maravilhoso!

O ballet co cedo e tarde ensinando em sete estrofes o valor da vida.

Pareceu-me um poema percorrendo o tempo, numa lucidez impressionante.

Numa escala de "prestíssimo" à "grave", o ritmo só seu.

Grande, Joe. Só um maestro pode compor um poema assim!

Beijos

Mirze

Joe_Brazuca disse...

(comentário "particular" de Simone Maia - grandíssima escritora, ensaísta e que tais, e amiga do mesmo porte...)

"Preciso lhe dizer...

Tenho uma rixa braba com o Tempo!

Ele é engenhoso, devo admitir... Mas muitas vezes não passa de um carrasco, um castrador de tudo o que se possa imaginar realizar.

Cheio de pompa, sempre inspirou poetas, filósofos, artistas e todo ser criativo da face da Terra.
Versos e mais versos... Pinturas à óleo, aquarela ou carvão, óperas, instalações, fotografias, filmes, arquiteturas monumentais ou não...

É... O "cara" é famoso... Até nas graças do Zé Povão ele já caiu! Não faltam ditos populares que o citem!... "Com o Tempo tudo se resolve", "Dê Tempo ao Tempo", "Quem espera (tá ele aí nas entrelinhas) sempre alcança" e blábláblá...
Tá. Tudo bem.
O Tempo é o "sábio dos sábios"! O.K.
"Quem tem pressa come cru e quente", né? Sei.
"A pressa é inimiga da perfeição"? É... Mas "pressa" é uma coisa, "praticidade" é outra!
Já é tempo (sem maiúscula) de se diferenciar as coisas... Mais discernimento é preciso. Sempre.

Sou prática.
E o Tempo não é nada prático. Ele me atrapalha a vida! Mas só às vezes.
Como disse, Ele é engenhoso. Não há como negar que sem Ele agindo com sua tão versada (e cantada, pintada, pensada...) sabedoria, de quando em vez acerta a mão, e faz as coisas acontecerem do jeito certo.
Mas...
Em tantos outros casos, só sabemos qual o jeito certo se formos práticos e agirmos no NOSSO tempo. Viu? Já aí mesmo ele perde a inicial maiúscula que tanto lhe agiganta.

É o caso de você ver uma onda se avolumando de modo anormal no horizonte e permanecer com os pés fincados na areia da praia "esperando" para ver se ela irá te alcançar ou não. "Ouvir" nosso instinto e discernir é preciso. Criar nosso próprio tempo às vezes é necessário. Como não? Quem irá dizer o contrário? E se sim, com qual argumentação? Quer dizer que se neguinho se afastar da orla e procurar um lugar alto e seguro ou mesmo um lugar distante da praia ele estará sendo apenas um ser pateticamente "apressado", "afobado" ou "ansioso"?
Então o correto seria ele ficar ali plantado, esperar para ver a onda se erguer a uns 7 metros acima do nível do mar e rebentar a poucos metros dele para arrastá-lo até os confins do Judas?

De que adianta eu cruzar os braços e ficar esperando que o dito Tempo me indique com seu infalível dedo indicador direito (se for destro) o instante exato de agir? E o que dizer desse tal instante aí? Não seria ele um irmão de sangue ou um parente de primeiro grau qualquer do Tempo? Mas o instante não ganha iniciais maiúsculas, porque o Tempo, de todo majestoso e cortejado, não lhe dá espaço. É... Tempo e Espaço... Velha dupla!
O que dizer dos instantes, cara? E não é a vida feita (e tão somente) de instantes? Quê significa o Tempo aqui e agora? Num instante estou aqui e no seguinte, não mais! E então o Tempo ficará para trás, tirando onda com a minha cara! Se "matando" de rir ao me ver morrer sem ter realizado merda nenhuma, por ter confiado tanto nEle.
É um crápula!

Ele pode ser benigno às vezes, mas não sempre. São esses os motivos da minha rixa com Ele: por vezes bênção, por outras maldição! Uma constatação e uma ilusão total.
Paradoxal, ambíguo..
Duas caras, o filho da puta!

Mas tudo bem. Deixa pra lá!

Enquanto isso, te darei sete tempos ou mais..."

Joe_Brazuca disse...

(continuando)

Mando-te mais sonhos
pois sei que tens muito sono
sei que é cedo para camisa e gravata
e que os anjos rondam tua cama
e te arrumam as cobertas

Fervo-te mais água
e o café deixo que tu meças
pois sei que é cedo para o banho quente
e que o aroma inunda a casa
e pede janelas alertas

Esquento-te mais os ladrilhos
pois sei que vestes macia flanela
sei que é cedo para a porta e fresta
e que os sonhos inda persistem
e fogem das horas certas

Banho-te de doce perfume
ainda que de breve escuma
pois sei que é cedo para o baile e festa
e que o lenho que queima e aquece
trepida em faíscas dispersas

Arrumo-te por sobre o leito
a roupa que o sol secou
pois sei que é cedo para o pente em riste
e o torpor que cai e esvanece
deixo por sombras discretas

Alinho-te sobre o peito
o pão que ainda existe
pois sei que é cedo para a faca e o corte
e que o leite de ubre e porte
escorreu por valas abertas (...)


Simone Maia e inSônia, às 03:34h do dia 07 07 2011."

Joe_Brazuca disse...

Gratíssimo, cara Mirze !

Voce é só incentivo e carisma !

um beijo

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