Sou o que sou

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Sampa, SP, Brazil
Sou terra, por ter razões. Sou berro, se aberrações. Sou medo, porque me dou. Sou credo, se acreditou

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

substância



[a vista é rápida e delineia para sempre outros olhares
avessos, retrospectivos, refletidos, salientes...]

A cor marrom dos móveis antigos, prolifera
como o cheiro de cera que lhes conservam.
No céu, cinco pontos brilhantes giravam em ciranda,
em sentido estroboscópico.Imaculado era o mistério.
A ânsia adrenérgica tomava posse de nossos fôlegos,
e nossos lábios esboçavam um sorriso extasiado.
Nas montanhas distantes, que jazem perto do
rubro por de sol, outras naves pululam, num
jorro de luz e espanto.

“A vinda estava próxima” – anunciava o bailado das luzes.
Os tempos de revelações eram enfim, chegados.
Na infinda estrada longilínea, com o asfalto às costas
e o mar a frente , ventos sopravam o inusitado,
e os povos, dançavam uns, fugiam outros.
Nuns tantos, dominava o medo e a descrença, noutros
o desvelo e a esperança.
De qualquer forma, nada mais seria como até então tenha sido.
Começava o inevitável rito de passagem...

A chuva cai em estereofonia no tecido multicolorido do meu
umbrella, e o chão irregular molha minhas meias rotas,
enquanto o rito celebra o cordeiro, os grãos, o pão e
o vinho sobre a mesa entalhada em toalha bordada,
como o maná prometido ao cotidiano da paz e costumes.
[“santo, santo, santo”, sussurra o diácono , entoando o
mantra que vem do tempo...]
No mercado as gôndolas de frutas multicolorem o
passado eterno, às suas sementes, a seus pássaros...

Adonai !...Adonai !...gorjeia a nova ave aos velhos
povos. Ave verum dicte sun !...respondem em coro
as noivas e seus rebentos anunciados.O mar se acalma
e vira o espelho de cada um dos interpretes.
[sentados em círculo solene, repousam os anciãos guardiães
da velha arca, com suas barbas alvas e sábias]

[a mãe soluçava o filho ido]
as fúcsias formavam rios nas faces, e os olhos olhavam
o nada...A voz soava como vento fantasmagórico, sem nexo
Guarda !...Guarda !...lontano il cuore piangeva sensa sangue
secco per stringere la dona che volava morta...
[Luas de Plutão rodeavam o planeta, como átomos escravizados
pelas lanternas dos suicidas, em fila, nos umbrais do 3º céu,
sinfonias inacabadas]

Toda química lhe escorria pela testa e as lágrimas
pelo rosto e ventas.Provinha-lhe de poucas cores,
nos cabelos pregados em azáfama sobre o
couro cabeludo embebido em sangue.
Já não se lembrava mais das cebolas cortadas,
dos filhos paridos, dos pares partidos...
Já não sentia o fel da bílis vomitada
d’um vinho agro bebido em alguma cama...
Já não sentia o cheiro cigano do esperma que lhe
escorrera pelas coxas deitadas, semi-abertas
em direção aos lençóis de algodão barato...
No auge de seu ciclo, nem lembrava mais
das línguas que lhe tocaram o íntimo...
Morria aos poucos, sorria aos poucos,
em frente ao espelho enferrujado.

[o alquimista acende as vela e derrete o épico]

7 comentários:

Cris disse...

Adonai, Adonai....!!!!
Joe Joe, que "coisa" mais linda!
Bem como a foto, cada um terá uma interpretação, porque cada um sentirá de uma forma seu texto belíssimo.
Na hora, meu Querido, bateu pra mim uma coisa de apocalipse!
Encerrando , fechand...o cortinas, batendo portas...
A última estrofe dói ao ler.
"Já não se lembrava mais das cebolas cortadas,

dos filhos paridos, dos pares partidos...

Já não sentia o fel da bílis vomitada

d’um vinho agro bebido em alguma cama..."

E isso não é dor? Agonia? Lamento em total desespero....

Joe Joe, um dia escrevo assim..........rs
Beijos e mais beijos

que fique registrado aqui também....rs

Mirze Souza disse...

Joe!

Um sacro texto épico e mediúnico. Todos sentem as mudanças. Uns admitem, outros esperam.

Seu texto chega a ser uma obra prima em beleza, e já não assusta, porque a natureza envia os sinais!

Fantástico!

Beijos, poeta!

Mirze

mARa disse...

...Ritos de passagem...
Assim se renova a alma
se transoforma os sentimentos...

E as vezes sentimos aquilo que esquecemos...

beijo Poeta Lindo!

C Jorge F disse...

Votos de um 2011 tranquilo e bem sucedido.

José María Souza Costa disse...

BElissimo texto. Parabens.

Mari Amorim disse...

Joe,
texto bem escrito.Obrigada poe essa magnifica leitura!
Desejo que seus dias,sejam iluminados pela essência Divina,com Boas Energias Sempre!
Abraços
Mari

Kiro Menezes disse...

Quedei-me em encanto!!!

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