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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Marcelo Novaes entrevista Joe "Brazuca" Canônico (ou "Lustrando o ego")


(O Escritor/Poeta Marcelo Novaes entrevista Joe Canônico em 6 DE NOVEMBRO DE 2010)


MN: Bom conversar com um maestro, com quem sabe por trilha sonora na paisagem. "Joe Brazuca é terra", diz você. Em que grau, Joe? E qual a trilha sonora da paisagem que teu olhar enxerga?

JB: Novaes !...Primeiro deixa te agradecer publicamente ao convite!...Valendo muito !

Esse lance de trilha sonora é bizarro, sabe?...rs...
Me fez lembrar um professor de composição que tive na “facul” (rs rs rs...) que vivia dizendo que “compositores se medem pelo fôlego: se são bons, tem o fôlego longo, se ruins, o fôlego é curto” (conceito completamente fora de propósito, claro !...). Um belo dia, pra arrasar mesmo (sempre fui muito “ácido” em minha vida escolar e acadêmica), me levantei e “machuquei”: e os criadores de jingles geniais e super conhecidos, como é que ficam ?...Serão eles “compositores menores” por criarem estruturas composicionais perfeitas de no máximo 30 segundos ? Não deu outra: classe se esborrachou e o mestre me virou a cara por um bom tempo... O que valeu, foi que ele (ao menos nos pareceu à época...) começou a mudar seu conceito, pois trocou o seu bordão...

Joe Brazuca é terra por ter que viver nela, inexoravelmente! Pelo menos seu lado corpóreo, mesmo que, sua mente pseudo-poética, viva um bom tempo longe dela, sabe-se lá onde... Contudo ele é “Terra Total”, quando vê seu próximo sofrer os desmandos dos déspotas, e o aniquilamento dos direitos inequívocos do humano, a serviço do desumano... Quanto vê e sente o caminhar desenfreado das injustiças sociais e os perigos emergentes da Nau do mundo, que insiste estupidamente no equívoco do dualismo entre bombordo e estibordo, esquecendo-se que, a qualquer lado que aderne, corre sério perigo de afundar, esquecendo-se da importância da quilha central, que promove o equilíbrio... Quando vê crianças entre cavalos de aço, implorando migalhas à sociedade que lhe mostra solidárias, em propagandas de governos absurdas e caóticas, e nas telinhas brilhantes das TVs... Quando observa a fanfarra de uma sociedade hipócrita que nega a si mesma, absorvida pelo desejo nefasto de TER, pela prepotência de SER, e pelo esquecimento do FAZER e CRIAR...

A minha trilha ?...É a mesma que a sua...que a nossa...que a de todos os homens de boa vontade: igualdade em Sol maior / fraternidade em Lá sustenido / Solidariedade em Si bemol e Caridade em Dó maior...(rs)



MN: Quanto de absurdo cabe na tua escrita, Joe?


JB: Todo ele. Onde e quando e como estiver.O absurdo é meu universo, meu mote, meu lastro criativo ou pseudo-estrutural. É o cimento do meu caos individual e perpétuo. É a morte do meu mundo ectoplásmico. É minha antena enferrujada de maresia, sem anestesia, que captura a anti-matéria do inconsciente, do obscuro id.



MN: Você é "canônico” no sobrenome [João Eduardo Canônico], e também religioso. Você enxerga algum olhar enviesado quando assume a religiosidade na escrita ? O profano [ou profanador] é mais pop?


JB: O sobrenome é uma sina, um signo, uma senha... Fui premiado e/ou amaldiçoado com o meu!...rs. Contudo, a religiosidade contida nesse conjunto de letras, bem como sua livre tradução (cânon, cânones eclesiásticos, regras episcopais, e que tais...), não exprimem as minhas verdades e vertentes religiosas.

Religião vem de “religare”, e nós já nascemos ligados! E permanecemos ligados todo o tempo à “Nave-mãe”. Só teimamos em não perceber essa sutileza. É mais prático pensarmos em autonomia. Porque delibera e valida o livre arbítrio. Mas este, o livre arbítrio foi uma conquista compulsória.

Mas isso não é de certa forma, nossa “culpa” (ela sempre aparece nesses quesitos, inevitável...rs: as próprias religiões e seus dogmas fabricados é que nos afastaram, paradoxalmente, da verdadeira idéia de Deus e seus adjacentes. Ou seja, de uma forma palmar, o que era pra ser, não foi e vice-versa, ao contrário...o avesso do reverso: a "piece de resistance” do submerso.

Agora, o que muda é o caminho (como o arqueiro Zen, o que importa é o caminho e não o alvo...), o tipo de coligação, conceitos e preconceitos inerentes, coisa e tal... Daí é que entra o sacro e o profano, que hoje se misturam, tal como o politicamente correto e sóbrio, e o politicamente incorreto e anárquico... Mas não vejo nisso uma condição de dosagem no templo do pop, nem pra mais, nem pra menos...O pop é pela sua condição de não ser, e se auto-anula, não pelo profano, mas pelo contrário, pelo sacro.

O paradoxo que transmutou em paradigma. “Ecce Homo”.


MN: Quais as adjacências da tua escrita? A tua letra roça em que?

JB: Essas “writer-adjacências” são e estão às semelhanças de quem as roça, e vice-versa, reciprocamente equilibrado. Aliás, adjacências, roçar e que tais, soam um belo Tango!...É isso! Minha escrita, quando roça em que, ou em quem, está adjunta a um Tango ! ... Óbvio ululante. rs rs rs


MN: O que te ensina a "cúbica solidão"? [A solidão é cúbica em certa poesia tua...].


JB: A solidão é sempre um inteiro que tende em metade, dentro um quarto. Todo quarto é cúbico. Todo cubo é solitude inteira, ao quadrado. Silogismo auto-redundante-cíclico básico. Pura efeméride aritmética.



MN: Quais são suas "divas peroladas", nas artes? E com que escritores é bom conversar? Complementando, e melhor ainda: com quais é bom interromper a conversa?


JB: Qualquer arte (ainda não sei bem o isso significa...) que me espelhe ou espelhe as pupilas que me observam, tal como madre-pérola. Puro “state of art”. Puro êxtase divinal.

Converso com os escribas que me convidarem à interlocução, dependendo do nosso estado de espírito. Do meu, por compulsão, os deles, por conclusão. Estamos todos sempre procurando por alguém, todo tempo, mesmo que seja por nós mesmos.
No momento mantenho estreito colóquio com Dante Alighieri, Norman Mailer e Augusto do Anjos...

Graciliano Ramos e o Evangelho segundo o Espiritismo e “Quem somos nós”, são meus amigos de cabeceira, no momento. Intercalo conversas interessantes entre eles... ah! despendo todo tempo que posso, em muitos blogs de amigos, correligionários e circundantes: “blogo-esfera” das letras (e algumas dos sons...) são também pérolas nacaradas de rara beleza...!

Hoje em dia interrompo qualquer esboço de colóquio, em se tratando de embustes políticos sobre as questões intermináveis da Humanidade.

Com o perdão do termo chulo que logo se aproxima: tal como ações políticas nefastas acabam em “pizzas”, principalmente em países deficitários, diálogos políticos costumam acabar em merda. Não tenho nem mais idade, nem mais intimidades para isso. E olha que me considero um “homo politicus”!



MN: O músico tende a valorizar mais ritmos e aliterações [compassos e síncopes, "a música escondida na fala"] do que imagens?


JB: Sem dúvida. A palavra é a medida exata da sua sonoridade. Transmuta-se com o ritmo. Acasala-se com a harmonia. Quando a palavra aglutina-se ao “modus operandi”, do trinômio Melodia, Harmonia e Ritmo, cria-se uma situação única e irreversível à nível semiótico: ficarão completamente fundidas, quase como luz, quasar e matéria.

Imaginemos uma poesia. Depois que ela é musicada, jamais conseguiremos entendê-la da primeira forma. A recíproca é verdadeira.

Por vezes, uso este recurso, a aliteração, em meus trabalhos, às vezes também, algo que esbarra no “absurdo” (aquele, lá de cima...rs), mesmo que fuja o nexo, pois é provável que naquele instante, perante aquela verdade poética, a fonética é o que vogue.



MN: O poema cutuca o medo, apazigua, ou ambas as alternativas? Acha que a poesia é boa oração, ou pálido substitutivo de quem não sabe orar?



JB: Sem dúvida, ambas. O poema é um grito no escuro. Assusta tanto à vítima, quanto ao algoz. É adrenalina e Lexotan. Cafeína com Rivotril. LSD com marshmallow. Tudo concomitantemente sincronizado. Nada é funcional sem a emoção e tudo é emocional em sua função.O Poema é a exegese de si mesmo. Proposição semiótica da escrita e fala. Ensaio do palco do surreal.


A boa oração é a poesia de quem não sabe versejar.

A poesia, tal como a oração, é intrinsecamente insubstituível. É o codex do divino, sempre, seja ela como for, venha de onde vier, vá para onde queira. “Carmina Burana”, saca?

MN: Dos escritores, roteiristas e dramaturgos que você já leu [e eu sei que você gosta de roteiros e peças, como textos], quem [ou quais] colocou [/colocaram] mais musicalmente as coisas e as idéias, mesmo sem o pentagrama estar ali?


JB: Glauber Rocha, sempre.
Constantin Stanislavski, de uma certa forma.
Federico Fellini, incontestavelmente.
Píer Paolo Pasolini, algumas muitas vezes.
Luigi Pirandello, “comme il faut”.
François Truffaut, música pura

Obrigado, caro Novaes!

MN: Obrigado, Joe.

Um comentário:

MIRZE disse...

JOE!

Lembro muito dessa e de outras entrevistas. A pedido do Marcelo eu acompanhava e analisava. Como conhecia muito meu grande amigo, gelei em algumas horas. Porque sou estúpida, certamente.

Você foi brilhante do início ao fim

Mais uma vez parabéns aos dois.

Beijos

Mirze

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